Imagine todas as plantas comestíveis que existem. Dessas conhecemos, produzimos e comemos diariamente uma pequena parcela, as chamadas plantas alimentícias convencionais. As que não conhecemos, que não produzimos ou que pouco consumimos são conhecidas como Plantas Alimentícias Não Convencionais, ou PANC. O que, por outras palavras, significa “todas as plantas que podíamos consumir, mas não consumimos”. No fundo as PANC são as plantas silvestres comestíveis. Como as beldroegas ou as urtigas usadas na gastronomia alentejana, por exemplo.
Apesar de pouco conhecidas, as PANC – termo criado pelo biólogo Valdely Kinupp – representam um mundo de sabores, propriedades e texturas por explorar. Em Portugal, a designação refere-se às plantas silvestres com valor medicinal e/ou comestíveis.
O termo alimentícias designa plantas usadas na alimentação, como verduras, hortaliça, fruta, frutos secos, cereais e até condimentos e corantes naturais. Não Convencionais são as que não produzimos ou comercializamos em grande escala, cujo cultivo e uso pode cair no esquecimento. Muitas plantas estão esquecidas e deixam de ser vistas como alimento, daí que voltar a consumi-las é uma forma de evitar que desapareçam da natureza e de valorizar as culturas alimentares em que estão presentes.
A natureza oferece-nos plantas comestíveis em abundância, estimando-se que haja 30.000 espécies com potencial alimentar, 12.500 estão catalogadas e dessas 7.000 foram usadas ao longa da história da evolução humana. Contudo, atualmente, 90% da alimentação mundial tem por base apenas 20 espécies.
Uma mesma planta pode ser considerada convencional numa região e não convencional noutra. Com o passar do tempo, dependendo de o seu uso ser resgatado e ou propagado, tal planta passará a ser convencional, sendo reconhecida, produzida, comercializada e fazendo parte do dia a dia de uma população. As folhas, os tubérculos e as raízes de algumas espécies não convencionais podem ser usadas como alternativa alimentar, promovendo o aproveitamento integral dos alimentos. Também são designadas PANC as partes comestíveis usualmente não consumidas de plantas convencionais, como as folhas e os talos da cenoura, beterraba, couve-flor e batata-doce, por exemplo.
As PANC podem ser plantas mais resistentes e adaptadas a lugares onde as convencionais não prosperam. Algumas são espontâneas outras são cultivadas, exigindo menor dedicação e tendo grande adaptabilidade aos diversos tipos de solo. Em geral, as PANC têm um alto valor nutricional, tendo algumas, inclusivamente, valor medicinal ou terapêutico e sendo usadas como “mezinhas” de acordo com a tradição popular.
Muitas espécies de plantas são denominadas invasoras ou simplesmente ervas daninhas, sendo menosprezadas pela maioria da população desconhecedora do seu valor nutricional, ecológico e económico. Estas plantas podem facilmente ser encontradas na natureza, promovendo o retorno da biodiversidade ao consumo humano, pois, apesar de serem comuns, têm valores nutricionais pouco conhecidos por falta de conhecimento e de estudo.
No que diz respeito à história da alimentação humana, as plantas alimentícias não convencionais eram consumidas por gerações anteriores. A limitação a um pequeno número destas plantas na dieta contemporânea deve-se, essencialmente, ao afastamento da agricultura convencional. Embora não integrem a dieta de grande parte da população, as plantas são elementos primordiais em qualquer ecossistema e representam 80% da alimentação humana. As centenas de espécies de plantas comestíveis pouco conhecidas têm elevado valor nutricional e propriedades únicas, mas só um número muito reduzido faz parte da dieta humana.
Recentemente os recursos alimentares silvestres têm atraído o interesse do consumidor pelo valor nutricional que lhes é reconhecido, pela importância que detêm na identidade gastronómica local, bem como pela necessidade de diversificar a alimentação, descobrindo alimentos com novas cores, paladares e texturas. Em relação aos alimentos e à sua disponibilização, a Humanidade depara-se agora com o desafio de alimentar milhões de pessoas, garantindo a sua segurança e soberania alimentar. Mas os alimentos continuam a ser produzidos em grandes quantidades, para manter a população mundial, sendo atualmente o problema a qualidade e não a quantidade e o acesso à alimentação.
O aumento drástico do preço dos alimentos, as catástrofes ambientais, a desigualdade na distribuição de rendimento, as crises económicas e políticas, o desperdício de alimentos em países desenvolvidos e a falta deles em países em desenvolvimento são fatores que têm contribuído para agravar a problemática. Segundo a FAO, até 2050 a população mundial será superior a 9,1 biliões de pessoas. Pelo que se espera que, até meados deste século, seja necessário aumentar em 70% a produção alimentar para dar resposta ao previsível aumento da procura. Este aumento da produção não garantirá a segurança alimentar se não houver outras soluções.
Segundo o relatório “Creating a Sustainable Food Future” (ver abaixo), com o aumento da população previsto para 2050, o risco de insegurança alimentar é alarmante. Por isso a solução não deve passar apenas pelo aumento da produção, mas pela redução dos impactos ambientais gerados pela agricultura industrial, intensiva, responsável por grande parte da emissão de gases com efeito de estufa, que tanto contribuem para as alterações climáticas.
Recorrer às plantas silvestres pode ser uma solução para o futuro e com futuro! O que lhe parece?
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