A pouca importância da geologia no nosso ensino (estou a falar do básico e de secundário) mostra quão ignorantes, neste domínio da ciência, têm sido as sucessivas gerações de governantes.
Satirizando poderia dizer que, como a esmagadora maioria dos portugueses habilitados com o ensino básico, qualquer um deles só sabe (e alguns nem isso) que o granito é uma “rocha com quartzo, feldspato e mica”, mas não sabe o que são e para que servem cada um destes minerais. Uma tristeza!
Propositadamente, vou falar de pedras em vez de rochas que, como é sabido, são a mesma coisa e que habitualmente usamos em contextos diferentes. Já aqui escrevi que apanhamos uma pedra do chão, mas quando estudamos, falamos, quase sempre, de rochas.
Num estilo algo literário, mas cientificamente rigoroso, podemos dizer que “as pedras, maneira mais vulgar de referir as rochas, são os livros onde estão escritas as histórias da Terra e da Vida”. Podemos, ainda, acrescentar que as letras dessa escrita são, sobretudo, os minerais e os fósseis, mas também os elementos químicos e os isótopos. Elas falam-nos de um passado de milhares de milhões de anos, no interior e à superfície do planeta, e muitas delas guardam no seu seio os testemunhos da evolução da biodiversidade. É, pois, nas pedras que se encontra registado o essencial dos acontecimentos geológicos ocorridos ao longo de cerca de 4540 milhões de anos da história deste “Planeta Azul” perdido na imensidão do espaço, no qual a matéria encontrou condições para caminhar no sentido da vida e onde, através do cérebro humano, evoluiu ao ponto de reflectir sobre essas mesmas histórias.
Sem esquecer os naturalistas e os alquimistas da Antiguidade e da Idade Média, foram os geólogos e os mineralogistas que nos ensinaram que as pedras são formadas por minerais, que trazem consigo as marcas das condições ambientais (profundidade, pressão, temperatura, natureza química) em que foram geradas e que, muitas delas, contêm elementos que permitem conhecer a respectiva idade. Neste último aspecto, descobriram que determinados minerais, como, por exemplo, os feldspatos potássicos (ortoclase, microclina e sanidina) e outros, encerram isótopos radioactivos (potássio 40, rubídio 87) que permitem datá-los e às rochas de que fazem parte, em termos de idade absoluta. Fala-se aqui de idade isotópica, via de regra, expressa em milhões de anos (Ma, de megaanos) e, algumas vezes, em milhares de milhões de anos (Ga, de gigaanos).
Na incessante procura e estudo dos fósseis conservados, sobretudo, nas rochas sedimentares (são conhecidos fósseis no seio de cinzas vulcânicas), os paleontólogos, com início no século XVII, têm vindo a trazer, ao nosso conhecimento, importantes páginas da história, não só da Vida, mas também da Terra.
Para além do seu grande interesse científico, as pedras (e grande parte dos minerais que encerram) podem ser vistas no que toca a sua enorme importância económica. Desde a chamada “Idade da Pedra Lascada” aos dias de hoje, os avanços tecnológicos da sociedade caminharam a par do seu conhecimento. São matérias-primas essenciais de muitíssimas e variadas as indústrias: química e todas as que nela têm origem (farmacêutica, cosmética, papel, tintas, plásticos, borrachas), metalúrgica (ferro, cobre, bronze, estanho, chumbo, alumínio, ouro, prata e outras), cimenteira, vidreira (vidro plano, garrafaria, frascaria, vidro de mesa e cristalaria), cerâmica (barro vermelho, faiança e porcelana), electrónica e outras. Estão nas pedras os minerais estratégicos no fabrico de computadores, televisores, telemóveis, electrodomésticos e outros equipamentos do nosso dia-a-dia. Estão nas pedras ou em relação com elas os combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) e os minerais de urânio essenciais às centrais nucleares e à assustadora corrida aos armamentos. São pedras ou delas retirados os materiais essenciais à construção civil (cantaria e alvenaria, tijolos, telhas, britas, ferro, cimento, cal, gesso, vidro e alumínio). Falta, ainda, dizer que estão nas pedras ou são pedras as gemas que vemos brilhar nas montras das joalharias e bijuterias.
Finalmente há que destacar a sua reconhecida importância na cultura, incluindo aqui a história, a etnografia, o artesanato e as artes, da escultura, ao desenho e à pintura, tendo aqui em conta que muitos dos pigmentos que dão cor às tintas são minerais e, portanto, entidades do mundo das pedras.
E, assim, com base nesta curtíssima referência à real importância científica, económica e cultural das pedras (leia-se, agora, rochas) e tendo em conta a pouquíssima importância dada ao ensino da ciência que as estuda, só podemos concluir, repito, quão ignorantes, neste domínio da ciência, têm sido sucessivas gerações de governantes.
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